A formação da criança e as influências da mídia

Qual a relação entre o conteúdo da mídia e a formação da criança? Há uma ligação entre a programação das televisões e a violência manifestada nas sociedades em todo o mundo? Como se dá os estímulos da tela, com desenhos, filmes e outras produções, nas relações humanas? Questões como essas estão presentes no livro A criança e a violência na mídia, lançado na última terça-feira, 30 de novembro, pela Cortez Editora, com apoio da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

Trata-se de uma coletânea de estudos, artigos e outros textos provenientes de diversos países sobre a violência na mídia e suas conseqüências nas crianças. Com uma visão abrangente do problema e várias abordagens científicas, a obra procura estimular discussões, iniciativas e atividades no sentido de combater essa violência e suas formas mais sutis de expressão, além de fornecer importantes dados numa perspectiva política e de globalização. “O conhecimento é um pré-requisito para a ação”, afirma o sueco Nils G. Nilsson, representante da Unesco, no prefácio.

Nesse sentido, a preocupação em conciliar a liberdade de expressão, estabelecida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, com ações e mecanismos de combate à violência mediada é uma constante em muitos momentos dos textos. Com base em documentos da ONU, o capítulo “As crianças e a mídia na pauta da ONU e da Unesco” traz alternativas verificadas em alguns países, além de conclusões e recomendações.

“Incentivos efetivos para a produção de material infantil adequado podem ser tão eficientes quanto tentar limitar o material inadequado”, argumenta Thomas Hammarberg, embaixador e conselheiro especial do governo sueco sobre questões humanitárias. E continua: “A discussão sobre a violência na mídia precisa incluir uma perspectiva mais ampla quanto à forma como as crianças passam o dia. O problema da mídia tende a aumentar porque muitas crianças passam mais tempo em frente da televisão do que na escola, e o tempo que passam com os pais é reduzido”.

A cada cinco minutos uma criança é presa nos Estados Unidos da América (EUA) por ter cometido um crime violento, segundo três pesquisadoras da Universidade do Texas, num dos artigos do livro. E o delito relacionado a armas de fogo mata uma criança norte-americana a cada três horas. Mas essa realidade pode ser considerada uma conseqüência da violência propagada pela mídia? As pesquisadoras dizem que vários fatores contribuem para a situação caótica em que vive a sociedade norte-americana, mas ignorar a violência na televisão seria um grave descuido.

Elas explicam que ao terminar o primeiro grau, uma criança norte-americana terá visto mais de 8 mil assassinatos e mais de 100 mil outros atos de violência. “Embora ver a violência na mídia possa não ser o único fator a contribuir para o comportamento violento, e embora não surta o mesmo efeito sobre todos, mais de quarenta anos de pesquisa indicam uma relação entre a exposição à violência na mídia e o comportamento agressivo”, argumentam.

Outro estudo, sobre a televisão norte-americana, que envolveu pesquisadores de diversas universidades em 1994, indica que 58% dos programas no primeiro ano (1994/95) continham violência. No segundo ano (1995/96), o percentual subiu para 61%. Embora esse aumento não seja considerado significativo, pode-se afirmar a permanência da violência na tela. Com relação aos personagens, os conhecidos como “bons” são freqüentemente os perpetradores de agressão na TV. “Quarenta por cento dos incidentes violentos são iniciados por personagens com boas qualidades que os tornam modelos de papéis atraentes para os espectadores”, salientam os pesquisadores.

Além de artigos de pesquisa sobre a mídia norte-americana, o livro traz análises sobre outros estudos no Japão, na Austrália, na Europa, na Argentina e na Ásia. Oferece ainda estatísticas interessantes sobre programas para crianças e jovens, cinema, Internet, softwares de entretenimento, rádios etc. E ainda importantes números sobre as crianças no mundo, com dados demográficos, sobre educação e trabalho.

No capítulo “A participação das crianças na mídia”, o leitor encontra experimentos práticos e positivos de participação ativa das crianças na mídia, em diferentes regiões do mundo. Em dois capítulos do livro, tem-se uma série de documentos, resoluções, declarações e regulamentos internacionais e regionais sobre a criança e a mídia, além de algumas avaliações. E no último capítulo, mais de 20 páginas apresentam uma bibliografia sobre o tema desde 1970.

O tema tratado no livro é, sem dúvida, fundamental para se articular com o pensar pedagógico. Se o poder da mídia faz parte de nosso cotidiano, desde a infância, e nos acompanha por toda a vida, talvez seja importante considerar a recomendação de Hammarberg: “Deve-se ensinar, em escolas de todos os níveis, sobre a mídia, seu impacto e funcionamento. Os estudantes devem ser capacitados para se relacionar com a mídia e para usá-la de uma forma participativa, bem como aprender a decodificar mensagens da mídia, inclusive nas propagandas.”


Livro: A criança e a violência na mídia
Autor(es): vários. Organização de Ulla Carlsson e Cecilia von Feilitzen. Tradução de Maria Elizabeth Santo Matar e Dinah de Abreu Azevedo
Editora: Cortez / Unesco
Páginas: 445
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. A formação da criança e as influências da mídia. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 1999. Disponível em <https://educabrasil.com.br/a-formacao-da-crianca-e-as-influencias-da-midia/>. Acesso em 26 fev. 2024.

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