A reestruturação dos cursos de educação no RJ

Por Donaldo Bello de Souza e Jonaedson Carino

A publicação do livro Pedagogo ou Professor?, lançado pela Quartet, foi derivada dos debates travados no “Fórum-RJ: Discutindo a Reestruturação dos Cursos de Educação”, promovido pelo NUPE (Núcleo de Projetos Especiais) da Faculdade de Educação da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em abril de 1999. O evento contou com a presença de alunos, professores e funcionários da própria faculdade e de um conjunto expressivo de palestrantes, representantes das seguintes instituições sediadas no Rio de Janeiro: UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UFF (Universidade Federal Fluminense), UNI-RIO (Universidade do Rio de Janeiro), UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

A organização do evento refletiu a preocupação da Faculdade de Educação da UERJ em conhecer o trabalho de reestruturação dos Cursos de Educação feito em outras instituições e de dialogar com elas. A dinâmica do trabalho foi constituída por duas palestras de abertura e por cinco mesas. Cada mesa foi dedicada a uma instituição convidada, e dela participaram: um professor da Faculdade de Educação da UERJ, como presidente; um expositor, representando a instituição convidada e um aluno do Curso de Pedagogia da UERJ, atuando como observador-participante.

Considerando o relato das cinco instituições que possuem Curso de Pedagogia – UFF, PUC, UERJ, UFRJ e UNI-RIO -, na introdução, os organizadores do livro realizam uma análise comparativa pautada em dez temas centrais comuns a todas as entidades consideradas; a saber: O Processo Interno de Discussão das Propostas de Reestruturação; Os Pressupostos Político-Pedagógicos; O Perfil do Egresso; O Eixo Central; As Habilitações; A Organização Curricular; A Integração Curricular; A Relação Teoria-Prática; A Formação Cultural e As Disposições Governamentais. Para cada um dos temas em questão a análise contempla uma apreciação global e comparativa, seguida de abordagens específicas relacionadas a cada uma das instituições. Ao final do conjunto de análises é apresentada uma conclusão geral sobre as mesmas.

Em seu conjunto, os artigos do livro encontram-se organizados em três partes fundamentais. Os trabalhos constantes da Parte I foram reunidos em torno de um tema recorrente nas discussões levadas a efeito no já mencionado Fórum: a questão das Faculdades de Educação versus os Institutos Superiores de Educação, iniciando-se com os artigos das professoras Célia Frazão Linhares, da Faculdade de Educação da UFF, e Bertha Borja Reis do Valle, da Faculdade de Educação da UERJ.

Em seu artigo “Formação dos Profissionais da Educação: Rememorando para Projetar”, a professora Célia Frazão Linhares promove uma análise filosófico-educacional, lançando-nos logo de saída a inquietadora pergunta: “Que mecanismos de rendição atuam entre os intelectuais não hegemônicos que os dificultam a propor alternativas instituintes para a educação no Brasil?”. Longe de constituir-se num inventário frio acerca dos problemas da educação em geral, e da formação de professores, em particular, o artigo nos instiga a pensar, a sopesar as condições e as perspectivas de transformação, numa atitude que se inicia num estranhamento, seguido de uma convivência com as diferenças e o enfrentamento dos conflitos, em pensamentos e ações que fujam do egoísmo e do utilitarismo, repensando-se a escola e os Cursos de Pedagogia, para que estes sirvam a um propósito de humanização.

Em seu artigo, intitulado “A Nova LDB e os Institutos Superiores de Educação: Histórias do Passado, do Presente e do Futuro”, a professora Bertha de Borja Reis do Valle utiliza sua trajetória pessoal e sua experiência, como professora e como militante nas associações profissionais e movimentos em prol da educação, para traçar um painel informativo e de análise crítica acerca da formação de professores. O panorama apresentado, repleto de informações sobre os mecanismos legais e seus quadros social e histórico, constitui-se em importante instrumento de contextualização e permite uma triste constatação: os problemas que envolvem a formação de professores, no Brasil, não são novos; as “soluções” criativas e “definitivas” abundam – sem que efetivas soluções sejam adotadas. Não obstante, fica demonstrado também um progressivo fortalecimento da consciência e da mobilização dos profissionais de educação, o que tem dado respaldo, base e consistência tanto às ações político-pedagógicas gerais quanto tem oferecido subsídios para os casos particulares de reestruturação de Cursos de Educação.

Da Parte I consta ainda o trabalho da professora Celia Regina Otranto, do Instituto de Educação da UFRRJ, que oferece sua contribuição ao livro com o artigo “A Universidade Rural e a Discussão sobre os Institutos Superiores de Educação”. O trabalho dá-nos conta das especificidades daquela instituição e fala das discussões que levaram os colegas da UFRRJ a rejeitar a proposta de transformação num Instituto Superior de Educação (ISE), contribuindo sobremaneira para a compreensão da polêmica atual em torno da temática em questão.

As Partes II e III da obra denominam-se, respectivamente, “Especialização ou Multiqualificação?” e “Generalismo ou Habilitação?”. Nelas, os professores Maria Felisberta Baptista da Trindade, da Faculdade de Educação da UFF; Alícia Bonanino, do Departamento de Educação da PUC; Elizabeth Fernandes de Macedo, da Faculdade de Educação da UERJ; Carlos Frederico B. Loureiro, da Faculdade de Educação da UFRJ e Ângela Maria Souza Martins, da Escola de Educação da UNI-RIO apresentam artigos que esclarecem as circunstâncias, características, estrutura e funcionamento dos Cursos de Educação que resultaram das reestruturações levadas a efeito naquelas instituições.

Consta, ainda, ao final de cada uma das partes do livro textos de comentário, produzidos pelos professores da Faculdade de Educação da UERJ que presidiram as mesas do Fórum. No texto de comentário relativo à Parte I, os professores Maria Alice Rezende Gonçalves e Rodolfo Ferreira discorrem sobre o entendimento das professoras Célia Frazão Linhares, Bertha de Borja Reis do Valle e Celia Regina Otranto acerca da problemática de transformação das Faculdades de Educação em ISEs. Sob o título “Faculdades de Educação/Institutos Superiores de Educação: Caminhos e Atalhos”, o texto busca distinguir o posicionamento daquelas autoras acerca da proposta de implantação dos ISEs, chamando a atenção para o fato de que, embora pautados em uma perspectiva crítica, o posicionamento das duas primeiras não exprime radicalidade na recusa dos ISEs, recusa esta apenas identificada de modo contundente no texto da última autora.

Por seu turno, a Parte II apresenta o texto de comentário dos professores Jonaedson Carino e Erivaldo Pedrosa dos Santos, denominado “A PUC, a UFF e a Reconstrução Democrática de seus Cursos de Educação”, onde os autores expõem suas visões sobre a reestruturação dos cursos de ambas as faculdades. A questão central que marca o texto constitui-se nos aspectos democráticos internos em que vem se dando as mudanças curriculares naquelas entidades, caracterizados pela promoção de eventos internos, pela participação das instituições em fóruns de discussão regionais e nacionais, pela idéia de que a reestruturação de um curso não se trata de algo definitivamente acabado e imutável e, por fim, pela pertinência social de seus projetos, no sentido de buscarem dar conta dos anseios da sociedade como um todo.

Finalmente, na Parte III, em seu trabalho intitulado “Os Processos de Reestruturação dos Cursos de Pedagogia da UERJ, UFRJ e UNI-RIO: Alguns Comentários”, os professores Zacarias Jaegger Gama e Elma Correa Lima fazem uma avaliação, em termos comparativos, dos trabalhos referentes às experiências dessas três instituições, tendo em conta a visão mais ampla das próprias concepções atuais de escola e educação. Nestes termos, questões como qualificação ou multiqualificação, habilitação ou multi-habilitação – que têm diferenças em seu tratamento por parte dessas universidades – são analisadas de um ponto de vista crítico à luz do neoliberalismo e de seus ditames em relação à educação.


Livro: Pedagogo ou professor? O processo de reestruturação dos cursos de educação no Rio de Janeiro
Autor(es): vários. Organização: Donaldo Bello de Souza e Jonaedson Carino
Editora: Quartet
Páginas: 167
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
Redação EducaBrasil. A reestruturação dos cursos de educação no RJ. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/a-reestruturacao-dos-cursos-de-educacao-no-rj/>. Acesso em 24 jun. 2024.

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