Chauí critica a reforma do ensino

É necessário manter uma distância entre as demandas do mercado e os trabalhos universitários. Essa é a opinião da professora Marilena Chauí, da Faculdade de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo), que proferiu palestra na abertura do 7º Simpósio de Iniciação Científica (Sicusp), na última quinta-feira, dia 11, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Chauí iniciou a palestra dizendo que se tratava de uma conversa. Fez, na verdade, uma breve e consistente análise sobre os rumos da universidade brasileira e apresentou sua visão sobre o papel da iniciação científica, de docentes e estudantes.

Segundo a professora, a grande reforma do ensino em curso no Brasil segue um modelo proveniente de um documento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), designado como plano estratégico para as universidades latino-americanas e caribenhas. “Tenho uma preocupação particular quanto ao modelo proposto”, revelou.

Em seus argumentos, Chauí disse que o BID faz um diagnóstico das universidades para propor um modelo baseado em dois critérios. O primeiro seria o da relação custo/benefício, ou seja, gasta-se muito e o resultado social é mínimo; tem-se ainda um custo alto com o corpo docente e um investimento mínimo com infra-estrutura, como bibliotecas, laboratórios etc. O segundo critério seria o da evasão, que é apresentado como um fato da natureza. “Existe o mar, o bosque, a floresta, o vulcão, o terremoto e a evasão”, ironizou Chauí. “A evasão não é contextualizada, não está vinculada a nenhuma análise das sociedades latino-americanas ou da situação política e econômica”, explicou.

O MEC (Ministério da Educação e do Desporto), segundo Chauí, também tem como critério a relação custo/benefício na sua concepção. E, com relação à USP, afirmou: “A proposta que tem vindo da nossa reitoria tem como espantalho, fantasma e assombração a evasão, que também é tomada como dado da natureza”.

Para o mau funcionamento das universidades, diz a professora, o BID aponta duas razões principais. A primeira seria a falta de um rígido sistema de recompensa/punição; e por isso falta estímulo a professores e a pesquisadores para realizarem os trabalhos. “É um protestantismo behaviorista. Põe queijo, tira queijo; põe carne, tira carne; saliva, não saliva”, avalia. A segunda razão seria a obsolescência dos currículos. E o critério para avaliar nosso arcaísmo seria a nossa inadequação às demandas do mercado. “O que o mercado pede é o que é moderno e tudo aquilo que cabe fora da esfera da demanda do mercado ou é inútil ou é arcaico. O que significa que de todas as definições que eu conheço do arcaico e do moderno e de suas diferenças esta é a mais espantosa”, adverte Chauí.

O BID ainda proporia investimentos condicionados a uma reforma, que exigiria uma distinção entre universidade e ensino superior. Segundo Chauí, o banco vê na confusão dos dois termos a explicação para a maioria dos problemas na América Latina. Na concepção do BID, a universidade é uma das modalidades do ensino superior, que teria quatro grandes funções.

A primeira grande função seria a de formar elites intelectuais por meio de cursos de graduação e pós-graduação inteiramente financiados pelo Estado, a fundo perdido. A segunda seria a função profissionalizante, para formar profissionais liberais, como o dentista, o médico e o engenheiro. O financiamento seria misto, uma parte privada e outra pública, e o credenciamento dos cursos, realizado por associações, sindicatos e sociedades dessas profissões, que teriam como critério o bom desempenho dos formados nesses cursos para o mercado. “O critério para o credenciamento é o mercado; e o financiamento privado é o de empresas que podem intervir na produção das grades curriculares”, afirma Chauí.

A terceira grande função seria a de ensino técnico, com cursos de dois anos, financiamento apenas privado, currículos determinados por empresas financiadoras e credenciamento individual, considerando o desempenho no mercado. E, finalmente, a quarta grande função do ensino superior seria a de ensino generalista, com duração de um ou dois anos e currículo feito pelo próprio aluno. “Corresponde ao que a nossa reitoria está chamando de seqüencial”, explicou Chauí, ressaltando que a função desse curso, nos termos do BID, seria a de adicionar valor ao currículo, ou seja, aumentar a capacidade de competição no mercado de trabalho.

Fazendo uma análise da concepção do BID sobre as quatro grandes funções do ensino superior, Chauí disse: “Isso significa que o curso superior é pensado, fora sua primeira função, diretamente como apêndice do mercado, ou seja, as necessidades modernas do mercado determinam currículos, duração, credenciamento, tudo que é feito no chamado ensino superior. E resta essa formação das elites intelectuais que possivelmente é o que incumbe às universidades”.

Depois de apresentar e criticar as propostas de reforma no ensino, nos termos do BID, a professora de filosofia da USP falou sobre a importância da iniciação científica nesse contexto. “A iniciação científica indica que é impossível de separar a docência, o ensino, o aprendizado, a formação universitária e a investigação”.

Segundo Chauí, a iniciação científica, que está se realizando bem-sucedida, é uma resposta prática e de política acadêmica direta ao “equívoco da separação” entre formação e investigação. “Os responsáveis pela pesquisa, não apenas estudantes em que nela estão, precisam se perceber como importantíssimos agentes de política acadêmica, pois eles estão apresentando a contraprova de uma proposta hegemônica que visa separar a formação e a investigação”.

Outro aspecto, salientado pela professora, foi sobre o papel da iniciação científica para desmontar a idéia de graduação como treinamento. Fez isso mostrando sua concepção de docência e aluno de graduação. “A idéia de docência universitária é de formação, de uma iniciação ao saber. É aquele movimento pelo qual o professor inicia os estudantes numa área do saber que pertence a uma área da cultura a qual pertencem o estudante e o professor. A formação é o trabalho de iniciação ao saber, ao conhecimento, à cultura, ao mundo enquanto dotado de sentido”.

E sobre o professor disse: “É fundamental na formação que ele não apareça para o estudante, e ele próprio não se considere, o detentor do próprio saber, o detentor da ciência, da verdade, da cultura e das artes. É preciso que ele seja o mediador, aquele que faz a intermediação entre o estudante e o saber. Ele não pode se colocar como obstáculo; fazer com que a relação fundamental seja com ele. Porque se a relação fundamental for do estudante com ele, o estudante não terá a relação fundamental com o conhecimento, com o saber”.

Para Chauí, se a docência for reduzida a treinamento, o professor será o “depositário” de todo saber de uma determinada disciplina, ou de seu conjunto. “Quando o estudante faz pesquisa, a relação não se estabelece entre ele e seu orientador. Ele não está pesquisando o orientador. Ele está pesquisando um campo em que o orientador se mexe melhor do que ele. A iniciação científica, portanto, destrói a idéia de que a formação se reduza a adestramento. Isso significa que a iniciação científica dá outro sentido ao curso de graduação”.

Na conclusão de sua “conversa”, a professora Marilena Chauí disse que a iniciação científica, tal como é financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), p
elo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), pelo Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e por outras fomentadoras, poderia se apresentar de uma maneira mais unificada e mais coesa. Além disso, deveria propor uma política geral, lembrando que as graduações universitárias têm o seu formato, o seu tempo, suas grades curriculares, os seus vínculos interdepartamentais e interinstitucionais pensados a partir do trabalho da iniciação científica. A pesquisa, nesse sentido, concluiu Chauí, permite estabelecer “a distância necessária entre o trabalho universitário e a demanda imediatista, fugaz e, freqüentemente, violenta e estúpida do mercado”.

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T; SANTOS, T. H. Verbete Chauí critica a reforma do ensino. Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 1999. Disponível em <https://educabrasil.com.br/chaui-critica-a-reforma-do-ensino/>. Acesso em 28 fev. 2024.

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