Docência, raça e etnia na universidade

O racismo presente no imaginário coletivo da sociedade brasileira é bastante conhecido apesar de ainda predominar no senso comum o mito da democracia racial. Como tratar dessa questão quando ela se reflete nas relações de um espaço intelectual como a universidade? Com essa idéia, Wilma de Nazaré Baía Coelho, da Universidade da Amazônia, investigou, no âmbito da Universidade Federal do Pará (UFPA), como aparece o preconceito racial nas trajetórias profissionais e pessoais dos professores negros do ensino superior. O resultado está em sua dissertação de mestrado “Retrato em negro e branco: trajetórias profissionais de professores/as negros/as na Universidade Federal do Pará”.

A pesquisadora constatou que as experiências vividas pelos professores reeditam a construção histórica fortemente edificada de que o negro é inferior e incapaz. Para ela, a sociedade de modo geral, na qual inclui-se a própria Universidade, não assume essa problemática nas relações inter-raciais, “pois assumir significaria dar sentido a possibilidades de discutir essas questões em âmbitos mais globais”. A própria prática profissional desses professores não incluem discussões acerca da raça, seja na sala de aula, relacionadas às suas disciplinas, a projetos de pesquisa ou à extensão. Dessa forma, os planos de trabalho semestrais e as avaliações são questões totalizadas por fatores de ordem sóciohistórica.

Coelho destaca que os depoimentos dos professores negros mostram como é árdua as suas trajetórias profissionais numa sociedade racista e, por extensão, como é igualmente difícil transitar num espaço acadêmico e profissional historicamente ocupado por não negros. “O preconceito racial sempre apareceu e aparece, às vezes de maneira velada nas suas intencionalidades e em objetivos tacitamente implícitos e mesmo nas atitudes concretas de quem o pratica”, assinala.

Para ligar os elementos que articulam histórias de vida e trajetórias profissionais de professores negros e compor um quadro sobre aspectos comuns entre eles, a pesquisadora estruturou seu trabalho em duas grandes partes. Na primeira, chamada “Etnia e raça: dilema histórico-cultural e vínculos com práticas de intolerância racial”, explica o uso da categoria raça do ponto de vista teórico e levanta questões sobre a prática do preconceito racial em espaços sociais como a Universidade. Depois, na segunda parte, reflete sobre a chamada “democracia racial” e sobre o racismo no contexto da sociedade brasileira, apresentando um quadro do contingente negro no País e na UFPA, além de fazer conexões com os depoimentos dos professores negros entrevistados.

Entre os autores de referência para a pesquisa, Coelho destaca Franz Boas e James Jones, que contribuiram em seu trabalho na reflexão crítica sobre a cultura e na desmitificação dos preceitos das teorias racistas. Sobre a questão racial no Brasil, a autora recorreu principalmente às obras de Carlos Hasenbalg e Kabengele Munanga. Mas são as idéias do historiador Jacques Le Goff e do sociólogo Pierre Bourdieu que influenciaram seu trabalho com relação a análise e compreensão das trajetórias de vida e relações sociais.

Na prática, a pesquisa que envolveu os professores da UFPA contou com a distribuição de quase 500 formulários, dos quais 189 foram considerados completos, num levantamento realizado durante oito meses. O objetivo era elaborar um perfil profissional dos professores negros da instituição e dar subsídios para a coleta de depoimentos orais. As entrevistas consideradas mais importantes segundo alguns critérios foram selecionadas e serviram como objeto de análise da pesquisadora.

Com relação aos dados obtidos, Coelho ressalta o problema que existiu na especificação da categoria “raça”. Para ela, ficou clara a diferença entre o contingente branco e o negro no universo acadêmico pesquisado, embora tenha havido uma diferença entre o percentual dos que se declararam assumidamente negros e os negros que estão na categoria “pardos”. Na sua avaliação, este dado pode indicar que existe uma negação da própria raça não só no imaginário social, mas também num universo profissional como o dos professores universitários.

De modo geral, os depoimentos dos professores revelam a complexidade da questão racial no âmbito da sociedade e, particularmente, na Universidade. “Isso se evidencia nas trajetórias profissionais de professores negros, pois a construção dessas trajetórias está interligada às construções realçadas na família, na escola, no contato com o movimento negro”, explica. Mas esta realidade, segundo a autora, está mudando. A presença, embora mínima do contingente negro no interior da Universidade (13,5% no caso da UFPA), representaria um certo “avanço”. Por fim, a pesquisadora levanta a necessidade de se discutir a questão racial nos cursos de formação docente. “Os profissionais que formam professores devem, no mínimo, ter conhecimento acerca da diversidade racial para que possam discutir e problematizar as questões sobre a diversidade étnico-cultural na qual fomos construídos”, conclui.

“Retrato em negro e branco: trajetórias profissionais de professores/as negros/as na Universidade Federal do Pará”, dissertação de mestrado de Wilma de Nazaré Baía Coelho. Orientação da profa. dra. Josenilda Maria Maués da Silva. Área de estudo: Educação, Ensino Superior, Relações étnico raciais. Defesa na Faculdade de Educação da Universidade da Amazônia (UNAMA), em 19 de outubro de 2000.

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Docência, raça e etnia na universidade. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2001. Disponível em <https://educabrasil.com.br/docencia-raca-e-etnia-na-universidade/>. Acesso em 23 fev. 2024.

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