Funk e rap: um direito à juventude

A escola é uma experiência muito distante para os jovens. A escola é um espaço com poucos referenciais de construção de identidades positivas. A escola é quase um instrumento de certificação e não de formação. Essas idéias estão presentes na tese de doutorado “A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte”, de Juarez Tarcísio Dayrell, desenvolvida na Faculdade de Educação da USP, sob orientação da professora Marília Pontes Spósito. O objetivo do estudo foi entender os processos de socialização entre jovens ligados ao rap e ao funk em diferentes espaços como a família, a escola e o trabalho.

Dayrell, que ajudou na elaboração da noção de juventude dos PCNs – Ensino Fundamental, partiu da hipótese de que o mundo da cultura, especificamente o da música, tem um papel importante na construção dos jovens como sujeitos. Para isso, realizou um estudo com três grupos de rap e três grupos de funk de Belo Horizonte (MG) num trabalho de imersão com uma pesquisa etnográfica.

A maioria dos estudos existentes sobre grupos juvenis, segundo o pesquisador, examina os grupos musicais em si mesmos, como os de rap e funk. “Há pouca informação sobre quem são esses jovens”, justifica Dayrell, que optou por enfatizar sua investigação no sujeito e não tanto na atividade cultural. Buscou, então, referenciais teóricos como o educador francês Bernard Charlot e o sociólogo italiano Alberto Melucci para entender o sujeito participante desses grupos juvenis.

Constatou-se pela pesquisa, por exemplo, uma diferença qualitativa entre o jovem rapper e o funqueiro. O rap teria um conteúdo de denúncia e de protesto, articulado como um instrumento de construção de identidade enquanto jovem, negro e pobre. “A identidade racial através do rap é muito forte”, ressalta Dayrell. O funk seria mais uma reivindicação de direito a diversão e a alegria. “Eu diria que é o direito à vivência da própria juventude”. Pelo estudo, o pesquisador concluiu que o jovem de periferia não tem direito a juventude, “enquanto uma fase da vida de preparação”. Dayrell lembra que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) determina como jovem alguém limitado à idade de 18 anos. “Temos que entender a juventude como espaço e tempo de formação porque boa parte da violência é conseqüência da exclusão desses jovens do direito a juventude”, alerta.

O estudo também deixou evidente que os jovens de periferia encontram poucos espaços de interlocução com o mundo adulto. “A escola não consegue fazer um diálogo com a realidade concreta que eles vivenciam, muito menos com as experiências culturais que eles já trazem”, afirma Dayrell, que acompanhou de perto seis grupos musicais, selecionados entre 148 entrevistados, numa pesquisa quantitativa inicial. O pesquisador acredita que se a escola valorizasse essas manifestações culturais, atrairia os jovens. “Hoje, eu tenho consciência de que a cultura é a grande linguagem que articula a juventude”, salienta.

Dayrell, que é professor de sociologia da Educação na Faculdade de Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), alerta para não se pedagogizar a cultura juvenil, ou seja, não fazer dela uma disciplina qualquer. Para ele, o importante é a escola estabelecer um diálogo com o objetivo de potencializar aquilo que o jovem já traz de experiência. Em outras palavras, pensar uma educação pela cultura, como importante instrumento educacional. “Não no sentido de apropriar, mas no sentido de ampliar”, adverte.

Ele questiona, por exemplo, por que a aula de Português, para jovens inseridos no mundo cultural, não pode ser de produção poética? Por que a aula de Geografia não poderia se tornar uma discussão sobre mercado cultural e indústria cultural? Por que não um estudo crítico da cultura americana? Por que a História não poderia ser a história da arte ou da música, e através dela puxar outros elementos para se pensar a História como um todo? Ou seja, se os jovens já estão mobilizados para a dimensão cultural, por que não aproveitar esse estímulo já existente e fazer disso um espaço de ampliação de conhecimentos?

Perguntado sobre os PCNs e a compreensão do texto sobre a juventude, Dayrell lamenta que as diferentes disciplinas tenham incorporado muito pouco a discussão que a própria introdução propõe com a noção de juventude. “Vai depender muito da sensibilidade dos professores de cada escola”, explica. Ele entende que os professores não podem pensar numa juventude singular. “A juventude é uma diversidade muito grande; não existe uma juventude, mas juventudes no plural”.

Outra orientação é para pensar no jovem como aluno que tem especificidades. Ou seja, um sujeito dotado de opinião, sobre si mesmo e sobre o mundo. “Então a escola tem que tratar o jovem na perspectiva de um protagonismo juvenil e estimular a autonomia, a reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo, mas a partir dele; e não de uma forma infantilizada como vemos na maioria das vezes”, argumenta.

“A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte”, tese de doutorado de Juarez Tarcisio Dayrell. Orientação de Marília Pontes Spósito, da FEUSP. Defesa em julho de 2001, na Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Funk e rap: um direito à juventude. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2001. Disponível em <https://educabrasil.com.br/funk-e-rap-um-direito-a-juventude/>. Acesso em 22 jul. 2024.

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