Nos caminhos da leitura prazerosa

Não há fórmulas prontas para ensinar a leitura prazerosa do texto literário, mas existem trajetos que se definem dentro de cada escola, com seus professores e alunos. Caminhos possíveis pela escolha de quem aprende e com a mediação para outros horizontes de quem ensina. Isso não significa obedecer a escolha do estudante, mas respeitá-la com vistas a um prazer estético. As conclusões estão fundamentadas numa pesquisa realizada com professores e alunos de 2° grau em cinco escolas particulares de São Paulo, que integram o Grupo (Associação de Escolas Particulares).

A fim de colher dados sobre conteúdos e metodologias, a pesquisa buscou nessas escolas um contexto favorável com relação ao ensino da leitura do texto literário, que representasse um avanço qualitativo. O estudo tinha como hipótese encontrar, nesses estabelecimentos, professores com formação acadêmica e com prática pedagógica atualizada, além de estudantes com condições diferenciadas de aprendizado.

Verificou-se que os conteúdos mais utilizados abordam a seqüência dos movimentos literários e os elementos de teoria literária. O estudo do texto com ênfase na relação texto/leitor e leitura de poemas são conteúdos com menor prioridade entre os professores pesquisados. Com relação às estratégias utilizadas, a preferência é dada para aulas expositivas monológicas, dramatizações, debates e trabalho em grupo. Aulas dialogadas, considerando professor, aluno e texto, são menos praticadas. Como critério, a pesquisa também considerou instrumentos utilizados em sala de aula, metodologias e objetivos. Este último, teve o preparo para o vestibular, além da leitura do texto, como a meta mais freqüente, em contraposição a um objetivo de desenvolver a sensibilidade do aluno e sua percepção estética.

Tendo em vista três relações centrais dos estudantes – com o texto, com o aprendizado de literatura e com suas expectativas, o estudo examinou os hábitos de leitura dos pais, o gosto pela leitura dos alunos, suas preferências de títulos, a citação de textos escolhidos por conta própria e a indicação dos mais cansativos, a presença ou não do prazer em aulas de literatura, dentre outras questões. A relação dos estudantes com a leitura é um dado relevante da pesquisa. Pode-se dizer que eles lêem e gostam de ler. No entanto, buscam uma leitura rápida, em revistas gerais, justificando que não querem “perder tempo com histórias longas”. O conto, o romance e a poesia, tão valorizados na escola, têm pouca preferência.

Essas e outras constatações estão na dissertação de mestrado de Maria Inês Batista Campos, defendida na PUC-SP, e que agora foi editada para livro, cujo título ficou Ensinar o prazer de ler, pela Editora Olho d”Água. Segundo a autora, seu trabalho teve a seguinte hipótese: “Se o ensino de literatura se centrar na leitura dos textos e for sustentado por teorias literárias e práticas pedagógicas que contemplem a interação do leitor com o texto, é possível levar os alunos ao desenvolvimento do prazer do texto, do prazer estético”.

O professor, diz Campos, deve explorar, através de perguntas, o universo de sentimentos e valores das personagens, seus enfrentamentos com a vida que levam e seus anseios por algo diferente. “Com isso, propicia-se ao aluno a identificação com o outro, quer porque nele se reconheça, quer porque dele se diferencie. Mas é necessário que o jovem faça esse trajeto de identificação para se tornar leitor, para dar vida à personagem e existência ao que lê”, argumenta a autora, no último capítulo do livro.

Reunindo contribuições de outros estudos, a pesquisadora, que teve apoio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para realizar seu trabalho, observou que o aluno deseja ler mas não aceita que o obriguem a isso. “Talvez esta seja a grande descoberta do professor que ainda nega esse desejo”, ressalta Campos. “Num clima impositivo e formal não se aprende literatura, um vez que a leitura do texto literário implica um processo de identificação que leva o leitor a assumir novas formas de comportamento social”, esclarece.

Tomando outras referências, como Hans Robert Jauss, Roland Bartes e Regina Zilberman, Campos constata a existência de uma forte ênfase positivista nos processos teóricos e metodológicos adotados no ensino de literatura, que têm marcas de historicismo e biografismo. “A tendência mecanicista imprime ao ensino uma imagem da literatura centrada no autor, nas fontes ou na História; o professor trata o texto como objeto de explicação, não desenvolvendo as várias leituras possíveis”, afirma a autora. E alerta: “Esse enfoque reduz a literatura a um inventário de autores e obras no qual a história individual apaga o quadro dos gêneros, transformando o estudo do texto literário em mero pretexto”.

Entrevista com Maria Inês Batista Campos


Livro: Ensinar o prazer de ler
Autor(es): Maria Inês Batista Campos
Editora: Olho d’Água
Páginas: 162
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
SANTOS, T. H. Nos caminhos da leitura prazerosa. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 1999. Disponível em <https://educabrasil.com.br/nos-caminhos-da-leitura-prazerosa/>. Acesso em 24 jun. 2024.

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