O terceiro setor e o mercado de trabalho

A universidade ainda forma um profissional para quantificar e o terceiro setor trabalha com uma lógica qualitativa. As idéias são do professor Carlos Roberto do Prado, docente do curso de Letras e Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, durante a VI Semana de Psicologia da USP, entre os dias 23 e 27 de outubro de 2000. Ele falou sobre os novos paradigmas da ação organizacional e das possibilidades de trabalho no terceiro setor quando abordou o tema “Desconstruindo a crise da subjetividade através de propostas educacionais: há possibilidades?”. A professora Ingrid Hötte Ambrogi, docente do curso de Pedagogia do Mackenzie, participou da mesa com a mesma temática. Suas considerações podem ser conferidas nesta seção do EducaBrasil.

O professor Prado iniciou sua fala dizendo que estamos vivendo novos paradigmas da ação organizacional, com influência direta no mercado de trabalho, principalmente do terceiro setor. “Perceber, compreender e adaptar-se a essas mudanças é o grande desafio que se apresenta a todos nós”. Ele entende que estamos sendo formados para gerir uma conjuntura que não existe mais.

Nesse contexto, as organizações (empresariais e outras) estão revendo suas estruturas e como conseqüência, garante Prado, surge dois mundos: um dos profissionais qualificados denominado mundo dos vínculos; outro das pessoas desqualificadas ou mundo dos não-vínculos. Ou seja, um cenário em que a educação e formação são uma necessidade.

“O saber fazer é fundamental porque consegue adaptar-se em qualquer lugar, principalmente, quando se educa para a liberdade e para a cidadania, onde o sujeito passa a saber conviver, decidir com os outros e decidir para os outros”, argumentou. O professor explicou que as organizações, independente de suas estruturas de negócios, estão reconhecendo no desempenho de seus recursos humanos a diferença entre o sucesso e o fracasso, que reflete, de certa forma, o grau de investimento nesta área e como se busca um retorno na competição.

Um ponto fundamental nesse processo de transformação está na cidadania, que deixa de ter um caráter assistencialista para ajudar um sujeito frágil. Segundo o professor, abre-se espaço para um ser dotado de direitos, com propostas originais e inovadoras realizadas pela sociedade civil como sindicatos, partidos políticos, igrejas e outras organizações.

Para explicar essas mudanças e compreender suas conseqüências, Prado fez algumas distinções dos principais setores atuantes da sociedade. O primeiro seria o estatal, com limitação na legislação. O segundo setor seria o das empresas privadas limitado pelo financeiro. E o terceiro setor é o limitado na cooperação e na troca. “Perde espaço o individual e ganha a coletividade”, enfatiza Prado.

O terceiro setor, explicou o professor, é composto por organizações sem fins lucrativos, criado e mantido pela ênfase na participação voluntária não-governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia, do mecenato, expandindo seu sentido para outros domínios graças à incorporação do conceito da cidadania, de suas múltiplas manifestações na sociedade civil. Essa concepção foi atribuída a Rubens Sérgio Fernandes.

“Esse caráter do terceiro setor é uma coisa inédita que está mudando a sociedade e não se define nem como empresa nem como governo; não deseja se submeter a essa lógica do mercado nem a essa lógica do governo que assume esse controle”, analisou o professor Carlos Roberto do Prado. E completou: “Eles buscam resgatar valores de solidariedade, de ética e atuam nesse segmento com uma outro lógica, que foge do mercado e do governo”

No Brasil, as ONGs (organizações não-governamentais), segundo Prado, vêm desde a época colonial do Brasil e eram muito ligadas à igreja e aos líderes religiosos, com um caráter assistencialista muito forte. Na década de 50, alguns grupos se organizam para a realização de pequenos projetos. Na década de 80, a mídia descobre as ONGs e começa a divulgar.

Em função dessa história, a preocupação com a estrutura organizacional foi deixada de lado. Prado explicou que as pessoas atuavam com uma proposta diferente, que não contemplava o desenvolvimento de profissionais. Com isso, torna-se necessário ter uma olhar mais atento para a estrutura organizacional das ONGs e surge um problema: esse olhar é importado do primeiro e do segundo setores, com formação e técnicas específicas.

Sobre o profissional, diz Prado: “quando chega nas ONGs tem um grande impacto, porque a estrutura é outra, a preocupação também; e não tem como atuar daquela forma como foi treinado e preparado”. Segundo o professor, estamos diante de um novo paradigma e os profissionais, interessados nesse setor, terão que reaprender.

Outra preocupação está na leitura dos resultados, também viciada pelo primeiro e segundo setores. Na visão de Prado, a lógica do terceiro setor é qualitativa, enquanto que a dos dois primeiros é quantitativa. Para ilustrar a situação, o professor falou sobre o sucesso na retirada de uma criança da prostituição infantil. “Não sei quantificar quanto isso custa, quanto deveria custar”, enfatizou. “A lógica passa a ser outra e o nosso treinamento da universidade é para estar quantificando”, completou.

Convivendo no mesmo ambiente, o primeiro setor desenvolve uma certa dinâmica; o segundo se flexibiliza na medida de sua necessidade, que é o lucro; e o terceiro começa a perceber a necessidade de mudar buscar novas formas de gestão. Entendendo os três setores dessa forma, Prado aponta o grande desafio para os profissionais: encontrar formas e práticas de atuação dentro do terceiro setor que não cesse o seu crescimento e desenvolvimento. “É muito comum verificar profissionais chegando com uma visão de primeiro e segundo setores e começam a querer implantar um modelo trazido da universidade e aí pára o processo”, alertou.

A formação superior mereceu uma atenção especial do professor. Para ele, nas universidades o currículo não está direcionado para o terceiro setor, formando exclusivamente para uma atuação no setor governamental ou privado.

Outra informação importante na fala do professor abordou o crescimento do mercado de trabalho no terceiro setor. Segundo Prado, foi aprovado em março de 1999 a lei 4690/98, que traz um artigo sobre a possibilidade de remuneração, com valores praticados no mercado, para os dirigentes das entidades. Até então era proibido o pagamento. Prado informou ainda que de cada dez novas frentes de trabalho abertas nos Estados Unidos, sete vagas estão no terceiro setor.

Apesar de apontar novas perspectivas para o mercado de trabalho, Prado lembrou da importância de se avaliar nossos interesses e nossas necessidades. Ele entende que o profissional descobre novas oportunidades quando é capaz de detectar ou solucionar problemas. E isso é possível fora da antiga estrutura organizacional. “Se vocês não quiserem mais trabalhar, escolham fazer aquilo que vocês gostam”, concluiu.

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T; SANTOS, T. H. Verbete O terceiro setor e o mercado de trabalho. Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/o-terceiro-setor-e-o-mercado-de-trabalho/>. Acesso em 29 fev. 2024.

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