Os processos de aprendizagens

O que é que a psicologia cognitiva pode proporcionar às práticas de avaliação das aprendizagens? Procurando responder a essa questão, dez especialistas reuniram-se em 1994 para realizar um simpósio, que se insere no quadro de encontros da Rede Educação e Formação (REF) de Louvain-la-Neuve. Durante a reunião, discutiu-se sobre as abordagens adotadas pelos alunos para se chegar a uma determinada resposta e sobre como compreender o sentido do procedimento utilizado. Examinou-se também as dificuldades dos alunos e suas estratégias na resolução dos problemas. A apresentação dos trabalhos, que consumiu dois dias, deu origem ao livro Avaliando as aprendizagens: os aportes da psicologia cognitiva, lançado pela Artmed Editora.

A obra mostra como a teoria cognitiva pode auxiliar na avaliação, enfatizando a importância de um entendimento do processo de aprendizagem. Na primeira parte das quatro que compõem o livro, quatro artigos discutem a avaliação das aprendizagens matemáticas. Jacques Grégoire, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, fala sobre os modelos utilizados para a avaliação diagnóstica dos distúrbios das aprendizagens matemáticas. O texto confronta o modelo piagetiano com diferentes modelos cognitivistas. Segundo o pesquisador, a avaliação das capacidades cognitivas ligadas a aprendizagens matemáticas não pode limitar-se às capacidades operatórias.

“Os cognitivistas demonstraram a necessidade de se levar em consideração outras características do pensamento, em particular, a maneira como que os conhecimentos são representados na memória. Por outro lado, chama a atenção sobre as limitações do funcionamento do sistema cognitivo”, ressalta Grégoire.

Sobre a avaliação das capacidades “matemáticas” que as crianças pequenas já possuem antes de defrontarem-se com a aprendizagem da matemática elementar, Jacqueline Bideaud, da Universidade Charles de Gaulle, na França, discute o tema no segundo artigo da primeira parte do livro. A pesquisadora apresenta as principais características das teorias mais marcantes para uma investigação segura sobre o tema. O leitor terá acesso a um quadro das teorias piagetianas e neopiagetianas da aquisição da noção de número. O texto de Bideaud também se dedica a apresentar três estudos empíricos das capacidades numéricas de crianças de quatro a seis anos.

Jean Retschitzki, da Universidade de Friburgo, na Suíça, examina a compreensão da resolução dos problemas. Para tanto, serve-se dos aportes da psicologia cognitivista. Ele aponta os limites dessa teoria e destaca a emergência de modelos explicativos concorrentes.

No último artigo da primeira parte do livro, o pesquisador Jean-Paul Fischer descreve a implementação de uma avaliação do tempo de resposta a cálculos elementares. Seu objetivo é discutir as possibilidades diagnósticas desse método de avaliação.

A segunda parte do livro dedica-se ao tema da avaliação da leitura. Os pesquisadores do Laboratório de Estudos dos Aprendizados e do Desenvolvimento CNRS (Dijon, França), Christine Jourdain e Daniel Zagar, e do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica (Paris, França), Bernard Lété, abordam a avaliação diagnóstica das dificuldades de leitura dos adultos e propõem um quadro teórico, com provas, que permite uma avaliação passo a passo dos processos envolvidos no ato da leitura. Eles consideram que a avaliação diagnóstica deve “possibilitar não uma simples estimativa do nível de habilidade de um leitor em termos de velocidade de leitura e/ou compreensão, mas sim identificar a origem de uma eventual ineficiência, indicando-se com maior precisão possível o nível de desempenho de uma pessoa para os diferentes processos que permitem um bom desenrolar da leitura”.

Ainda na segunda parte do livro, Bernard Lété apresenta as possibilidades de aperfeiçoamento das capacidades na leitura com o auxílio do computador. Fazendo uma análise da literatura sobre a questão, o autor mostra como a tecnologia pode ser uma ótima ferramenta de avaliação formativa. “Não estamos longe das concepções de Piaget: nas salas de aula, o computador pode permitir à criança ser o construtor de suas próprias estruturas intelectuais graças à mediação que pode exercer entre a linguagem e o desenvolvimento cognitivo”, argumenta Lété, na introdução de seu artigo.

O livro Avaliando as aprendizagens trata ainda da utilização do conceito de metacognição no quadro da avaliação formativa. Gérard Scallon, da Universidade Laval, no Canadá, apresenta a evolução das práticas de avaliação formativa e analisa as dificuldades encontradas nas mesmas. José-Luis Wolfs, da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, desenvolve mais especificamente o uso da metacognição como meio para fazer o aprendiz participar da avaliação diagnóstica de suas aprendizagens.

A última parte do livro trata das relações entre os modelos cognitivos e os métodos psicométricos. O autor do artigo, escrito por Dany Laveault, da Universidade de Otawa, no Canadá, aborda o fato de que a teoria da generalização pode ser uma poderosa ferramenta para ajudar-nos a medir de maneira válida e confiável as diferentes facetas do processamento de um problema por um sujeito.

Na conclusão, Jacques Grégoire faz uma revisão das diferentes práticas de avaliação das aprendizagens e debate o papel que cabe à psicologia cognitiva. Ele percorre uma série de situações as quais cada uma utiliza-se de um modelo particular de avaliação com suas exigências e regras próprias.


Livro: Avaliando as aprendizagens: os aportes da psicologia cognitiva
Autor(es): vários. Tradução de Bruno Charles Magne e consultoria de Maria das Graças Souza Horn
Editora: Artes Médicas Sul
Páginas: 223
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Os processos de aprendizagens. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/os-processos-de-aprendizagens/>. Acesso em 15 jun. 2024.

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