Pelo fim da regularidade na educação

“A escola, enquanto instituição, cobra uma conduta linear e a maioria dos educadores se sentem absolutamente perdidos”. A afirmação é da professora Ingrid Hötte Ambrogi, docente do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, durante a VI Semana de Psicologia da USP, entre os dias 23 e 27 de outubro de 2000. Para falar sobre o tema “Desconstruindo a crise da subjetividade através de propostas educacionais: há possibilidades?”, a professora abordou três paradigmas da educação, mostrando suas conseqüências, e a reforma espanhola com tendências não-lineares. O professor Carlos Roberto do Prado, docente do curso de Letras e Pedagogia do Mackenzie, abordou o mesmo tema e suas considerações podem ser conferidas nesta seção do EducaBrasil.

A professora partiu de três metaparadigmas elaborados por William Doll, um estudioso americano de currículos. O primeiro seria o pré-modernismo, uma teoria com paradigma fechado de conhecimento, ou seja, de certezas absolutas. Esta característica está muito presente, segundo Ambrogi, na escola tradicional.

“Não se deve esquecer das múltiplas facetas dessa escola tradicional. O modelo reducionista, em que o centro das atenções está na figura do professor e o depositário é o aluno, tem muitas vertentes e jeitos de fazer. Existe nos liceus franceses, nas tendências do positivismo e do tecnicismo”, explicou a professora, enfatizando as mudanças ocorridas segundo interesses de quem determina as diretrizes da escola que é uma dada sociedade.

Os paradigmas na educação, disse Ambrogi, não regem apenas formas práticas de um estado dentro da sala de aula. “Eles vão dominar e conduzir a ação do homem na sociedade também. O jeito que você pensa o ato de ensinar e aprender determina condutas que regem a ação fora da sala de aula”. Segundo a professora, num modelo mais fechado e ortodoxo, as condutas sociais também são mais fechadas. “O sujeito que foge é condenado”, lembrou.

Outro metaparadigma abordado por Ambrogi recebe o nome de modernismo, que traz uma evolução com um modelo um pouco mais aberto, de onde advém todas as teorias biológicas. Essa tendência tem teóricos como Jean Piaget, da tradição de Charles Darwin. “Dentro das correntes educacionais tem o advento da escola nova, onde o sujeito é o centro e o professor é um mero animador ou coordenador das atividades”.

O pós-modernismo seria o terceiro metaparadigma constituído por tendências não-lineares. Segundo a professora, o grande ícone é o químico Ilya Prigogine, ganhador do Prêmio Nobel de 77, por desenvolver a teoria das estruturas dissipativas, ou seja, a teoria do caos, que vem da Física. A referência traz a idéia de que as cidades e as condutas pessoais não são ordenadas. “As coisas vão acontecendo por força ou questões que a gente não tem controle absoluto. A gente sabe o início mas não sabe o final”, disse.

Para Ambrogi, existe um preconceito muito grande sobre o caos, porque parece que é uma desordem total. “Não é isso que as leis da Física dizem”, afirmou. “É uma desorganização para uma nova ordenação. Mas é uma ordenação não-positivista, não-regular”. Entretanto, essa visão não é comum em nosso cotidiano, principalmente se considerarmos as vivências escolares, que são ordenadas, regulares e lineares.

A reforma espanhola estaria de acordo com essas tendências não-lineares, que se preocupam com o conteúdo e a prática, e com a formação de um cidadão num mundo globalizado. “A sociedade e o mercado pedem um cidadão crítico, cooperativo, criativo, que saiba trabalhar em grupo, mas que também tenha uma autonomia do conhecimento da busca pessoal, de estar se propondo a formular soluções sem esquecer a coletividade”, explicou.

Essa tendência propõe uma reorganização dos conteúdos acadêmicos. Nas palavras de Ambrogi, “onde não existe mais o conteúdo tão ortodoxo por áreas, mas existe a característica do conteúdo”. A ação escolar dependeria da visão do professor sobre o conteúdo e da configuração dos alunos na sala de aula. Os conteúdos, nessa concepção, não se fixariam numa única disciplina e teria a seguinte divisão: factuais, procedimentais, conceituais e atitudinais.

Os factuais envolvem dados e necessitam da memória. Segundo a professora, houve um esvaziamento do conteúdo com o advento da escola nova, que via com restrição o uso da memória para que cada um faça do seu jeito. “Na sociedade não dá para fazer cada um do seu jeito, senão a gente fica muito individual, fica a percepção de cada um, e isso não gera cooperação”, argumentou Ambrogi, enfatizando a importância desse tipo de conteúdo. Outro conteúdo que exige memória é o conceitual, que também seria muito valorizado pela escola tradicional. Porém, os conteúdos atitudinais, que envolvem a atitude do sujeito frente ao conhecimento e seu parceiro, foram esquecidos. Os procedimentais envolveria as etapas de construção e evolução do conhecimento. Portanto, abre um importante espaço para a história.

Mas o que a reforma espanhola tem a ver com o Brasil? Segundo a professora, tudo. Temos os Parâmetros Curriculares Nacionais, que teve como consultor o psicólogo espanhol Cesar Coll, que também orientou a reforma espanhola. A professora Ingrid Hötte Ambrogi fez ressalvas sobre a importação das idéias, mas lembrou a importância do mundo globalizado e suas tendências gerais. “Temos a tendência de um cidadão crítico e cooperativo não só no Brasil, mas no mundo inteiro”.

A professora também lembrou as mudanças proporcionadas com as novas tecnologias, que permitem uma nova ordem nas relações. Por exemplo, citou o aumento de profissionais que executam as tarefas em suas casas e enviam os trabalhos por e-mail. “Mas não é porque trabalha em casa que não tenha que ver o mercado e como o seu se encaixa com os demais”, explicou, fazendo críticas a alguns professores, que se dizem construtivistas, que ouvem os alunos, mas em alguns pontos da prática educativa voltam para um princípio pré-modernista, com avaliação quantitativa, destruindo todo o processo.

“As pessoas têm uma formação muito positivista e querem modelos fechados. Querem que o planejamento dê certo, que a atividade ocorra num dia determinado, que dure tanto tempo, tudo muito regular. Mas a vida não é regular”, advertiu a professora. Para ela, as tendências vêm por uma não-regularidade, que gera muito conflito. “A escola, enquanto instituição, cobra uma conduta linear e a maioria dos educadores se sentem absolutamente perdidos”.

A recomendação de Ambrogi também foge do linear e da regularidade. Concebe a solução como algo difícil, sem fórmulas mágicas. “É mais fácil reproduzir esquemas que se vivenciou do que se libertar para configurar de uma forma diferente. É difícil montar um comportamento que não se vivenciou e não tenha a prática. Temos que projetar isso e criar um novo. Isso dá medo e gera insegurança. Para tentar mudar é preciso pensar e repensar o tempo inteiro até que se torne uma coisa fluida e natural.”

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T; SANTOS, T. H. Verbete Pelo fim da regularidade na educação. Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/pelo-fim-da-regularidade-na-educacao/>. Acesso em 15 jun. 2024.

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