Pensando a educação com Platão

Sócrates questionava a possibilidade de ensino. No diálogo Menon, de Platão, ele mostra que um escravo não precisa aprender sobre a verdade da matemática para resolver uma questão. O importante seria como esse conhecimento é retirado do próprio saber de alguém. O filósofo grego, por meio de algumas indagações, faz lembrar no escravo algo nunca ensinado. Essa passagem marcante no pensamento ocidental resgata uma preocupação antiga, mas extremamente atual se a nossa atenção estiver voltada para um certo tipo de sociedade, que, para Platão, deve ter a participação de seus habitantes. O discípulo de Sócrates entendia que o ideal de educação é formar um indivíduo cidadão atuante na sua comunidade, que não seja apenas centrado em si mesmo.

As concepções desses pensadores contrapõem às da modernidade, que valoriza um indivíduo autônomo e livre em detrimento da coletividade. Diante dessas percepções, como conciliar as duas tendências? Platão pode fornecer alguns caminhos para formar e não apenas instruir as pessoas, afirma o professor de Filosofia Evilázio F. Borges Teixeira, da PUC-RS, autor do livro A educação do homem segundo Platão, lançado pela Paulus.

“Somos desafiados a pensar uma educação integral, que supere os unilateralismos de nossos sistemas educacionais. Isso implica formar o homem em todas as suas dimensões e não somente na sua dimensão intelectual. Parece-nos insuficiente educar apenas o indivíduo competente e capaz de competir e fazer parte do mercado de trabalho. Urge, também, e sobretudo, educar e formar o homem ético, participante de uma comunidade humana e, como tal, incidente sobre a sua realidade social, transformando-a”, salienta Teixeira, na introdução de seu trabalho, que foi dividido em quatro partes.

O primeiro capítulo dedica-se a uma breve apresentação dos aspectos mais significativos da Grécia. O objetivo é identificar as influências antigas na filosofia de Platão. O autor aborda a originalidade daquela civilização, o início da democracia em Atenas, os sofistas e os pensadores que influenciaram o filósofo. O texto de Teixeira é documentado com notas e bibliografia.

Sobre a definição de educação para Platão, o segundo capítulo toma como referência A República para discutir o conceito de polis, eudaimonía, aretê, justiça e o processo educativo do filósofo capaz de pautar sua vida segundo o critério da verdade e do bem, além de outros temas.

“Platão condena o prazer como sentido último da existência”, diz Teixeira, fazendo um alerta: “Isso não significa dizer que Platão não valoriza a importância do prazer na vida humana. Afinal, a vida é também gozo, fruição”. Nessa linha de discussão, tudo caminha para uma educação que forme um homem virtuoso, para ser feliz.

Na terceira parte do livro, Teixeira apresenta a educação integral, entendida por Platão como educação do corpo, através da ginástica, e da alma, pela música, para que essa possa atingir o nível mais elevado da theôria, das idéias eternas, entendida como contemplação da idéia de Belo e do Bem. “A arte é o patrimônio de estar vivo. Consiste numa necessidade pessoal e social, pois estabelece novas relações entre o indivíduo e o mundo que o cerca”, argumenta o autor sobre a importância das artes na educação.

O último capítulo fala da educação empreendida pelo Estado considerando sua importância na vida do indivíduo e da polis. Segundo Teixeira, o homem é um ser aberto, voltado para o exterior. “Essa capacidade de abertura possibilita ao homem conhecer-se a si mesmo. Abrir-se implica viver numa comunidade, visto que a experiência comunitária é imprescindível. O homem sozinho e isolado tende a fechar-se sobre si mesmo. Nesse sentido, a experiência nos tem mostrado, e Platão já o sabia muito bem, que todo narcisismo é suicida, pois mata a si mesmo”.


Livro: A educação do homem segundo Platão
Autor(es): Evilázio F. Borges Teixeira
Editora: Paulus
Páginas: 142
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Pensando a educação com Platão. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/pensando-a-educacao-com-platao/>. Acesso em 12 jun. 2024.

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