Uma proposta humanista para a formação

O uso intensivo de novas tecnologias e formas de organização do trabalho tem gerado um novo modelo produtivo, uma outra lógica de utilização da força de trabalho. Diante dessa reestruturação, num mercado altamente concorrencial, a educação e a formação de professores assume um papel fundamental no desenvolvimento de novas habilidades cognitivas e sociais, para inserir o Brasil no mundo globalizado de maneira mais justa.

Com essa perspectiva da educação, uma equipe interdisciplinar da Faculdade de Educação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) examinou o curso de licenciatura de três universidades: UFRJ, UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Vale explicitar que o estudo contemplou diferentes dependências administrativas: federal, estadual e particular. O resultado do trabalho, que focalizou a formação do educador de ensino médio em nível superior, pode ser conferido no livro Educação de professores na era da globalização: subsídios para uma proposta humanista, editado pela Nau.

Inicialmente, a obra traça importantes passagens da história da educação brasileira a fim de identificar as origens dos problemas atuais, as abordagens dos governos e dos administradores da educação, além de mencionar algumas conquistas reivindicadas. Depois, no capítulo III, os dados coletados em campo são apresentados e interpretados.

Diante das exigências do mundo do trabalho, o capítulo IV examina as tendências na formação dos formadores. O objetivo é ampliar a discussão para as habilidades e capacidades próprias do agir comunicativo, envolvendo uma dimensão social, política e ética, para além da técnica e do saber instrumental. No último capítulo, apresenta-se alguns elementos básicos para uma proposta humanista no curso de licenciatura.

Um dos pontos colocados à reflexão enfatiza a importância de uma educação continuada. “Pela dinâmica do trabalho docente, cabe ao professor uma busca sistemática pela educação continuada. Grandes mudanças tecnológicas geram a necessidade de uma atualização constante, e uma atitude de autogestão de Educação seria um princípio importante a ser buscado na formação do professor.”

Na visão dos pesquisadores, o trabalho humano está se tornando mais abstrato, autônomo, coletivo e complexo. “Cada vez mais as funções diretas estão sendo incorporadas pelos sistemas técnicos, e o simbólico se interpõe entre o objeto e o trabalhador. O próprio objeto de trabalho torna-se imaterial: informações, signos, linguagens simbólicas.”

O trabalho repetitivo, argumentam os autores do livro, vem sendo substituído por um trabalho de arbitragem, em que é preciso diagnosticar, prevenir, antecipar, decidir e interferir. Para eles, o trabalhador polivalente deve ser muito mais “generalista” do que especialista. Ou seja, para desenvolver novas funções, há exigências de competências de longo prazo que somente podem ser construídas sobre uma ampla base de educação geral.

O aprendiz-trabalhador, na visão dos autores, trafega num contexto complexo, com exigência de variadas competências. Por exemplo, a capacidade intelectual e técnica é responsável por “reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar estrategicamente, introduzir modificações no processo de trabalho, transferir e generalizar conhecimentos.” Outra competência seria a organizacional, para gerir o trabalho. As competências comunicativas visam a expressão e a comunicação, de trabalho em equipe, de diálogo, de negociação, de comunicação interpessoal. Há ainda, segundo o livro, as competências sociais, para “utilizar seus conhecimentos, obtidos através de diferentes fontes, recursos e meios, nas diversas situações do mundo do trabalho, transferindo-os para o mundo da vida cotidiana e vice-versa”.

Para tratar das questões surgidas com a globalização em seus múltiplos aspectos, a pesquisa utilizou uma abordagem qualitativa histórico-cultural dialética. Dessa forma, abordou-se aspectos históricos, conceituais, contextuais e o cotidiano de cursos de licenciatura das três universidades do Rio de Janeiro.

A coleta de dados contemplou o cotidiano dos cursos de licenciatura por meio de depoimentos e opiniões de alunos, professores, pesquisadores e um órgão de classe. Segundo a análise dos dados, o modelo dos currículos de formação de professores é disfuncional, contribuindo para a dissociação entre conteúdo, metodologia e desenvolvimento profissional.

Com relação à perspectiva histórica, examinou-se as transformações na cultura, na política e na economia em função da globalização e das conseqüentes implicações no sistema educacional, com destaque para a formação de professores e os recentes movimentos de renovação da licenciatura. Por meio de uma fundamentação teórica, fez-se também uma perspectiva contextual confrontando a Educação com os novos conceitos de produção e trabalho. O enfoque maior foi dado ao desenvolvimento dos cursos de licenciatura.

As conclusões sustentam a necessidade da construção coletiva de uma política de formação de formadores que considere as transformações estruturais que ocorrem no seio da sociedade moderna. O objetivo, segundo os autores, é superar o modelo defasado de conservação.

O livro também faz algumas propostas para a reversão do processo, com destaque para a formação docente compartilhada, a postura reflexiva e dialética nas ações do professor, a exigência da busca sistemática pela educação continuada e a remuneração condigna.


Livro: Educação de professores na era da globalização: subsídios para uma proposta humanista
Autor(es): Helena Ibiapina Lima, Ruth da Cunha Pereira, Vera Vergara Esteves e Vera Maria Kloeter. Coordenação de Wally Chan Pereira.
Editora: Nau
Páginas: 256
COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Uma proposta humanista para a formação. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/uma-proposta-humanista-para-a-formacao/>. Acesso em 28 fev. 2024.

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