Visões de mundo numa escola particular

O ambiente familiar influencia a vida escolar das crianças? O que faz com que algumas tenham tantos problemas na escola? Qual é a provável origem desses desajustes? Como são constituídas no interior da família as condições para uma boa escolarização? Essas e outras questões serviram de base para a dissertação de mestrado de Ana Paula Lellis Werneck, defendida na PUC-RIO (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). O objetivo da pesquisadora foi o de conhecer algumas características do ambiente familiar e escolar de estudantes e as implicações destas no desempenho escolar das crianças.

O estudo, que realizou a pesquisa de campo numa pequena escola da zona sul do Rio de Janeiro, teve seus dados analisados com a mediação das idéias do sociólogo francês Pierre Bourdieu, em particular seus conceitos de habitus, herança cultural e capital.

O estabelecimento de ensino escolhido para o trabalho é procurado por famílias cujos os filhos tiveram dificuldades em permanecer em escolas particulares mais “tradicionais”. Essa situação foi verificada nos dados recolhidos em entrevistas e na análise das fichas escolares dos alunos.

Para a realização do estudo, foram feitas entrevistas com as famílias de uma das turmas da escola e com a equipe pedagógica. Esse trabalho de campo visou caracterizar os hábitos dos estudantes em relação à estrutura e volume de capitais econômico e cultural de suas famílias e os possíveis desdobramentos sobre o desempenho escolar. Com relação à equipe pedagógica, o objetivo da entrevista foi caracterizar a turma estudada e a escola, nos aspectos pedagógicos e no espaço físico.

“Acreditamos inicialmente que iríamos encontrar na escola particular famílias com volume e estrutura de capitais elevados. Entretanto, a pesquisa revelou a dificuldade em classificar as famílias segundo a sua posição na sociedade. Entre as famílias pesquisadas, por exemplo, havia uma família cuja mãe, chefe de família, era empregada doméstica que tinha os estudos do filho custeados pela patroa”, explica Werneck.

Apesar dessas dificuldades na classificação, foi possível separar as famílias em três tipos. O primeiro seria o de família de baixo volume de capital econômico, social e cultural, que procuram a escola particular como forma de proporcionar melhor qualidade de ensino aos filhos. O segundo tipo de família é o de médio volume de capital econômico e baixo capital cultural e social, que vê na escola particular um projeto de ascensão social. O terceiro tipo compreende uma estrutura de capital melhor, na comparação com os outros tipos. As famílias classificadas neste último tipo procuram aquela escola porque a entende como um “atalho” possível para seus filhos ingressarem no ensino superior, uma vez que nas escolas “tradicionais” eles fracassaram.

As famílias estudadas, segundo Werneck, possuem com a escola uma relação “intensa, laboriosa, tensa e esforçada”, característica marcante dos indivíduos com baixos volume e estrutura de capitais. Estão presentes nas suas falas a consciência dos limites da herança cultural, além da inoperância da escola na superação dos limites desta pouca herança cultural.

O estudo também verificou que há forte presença da mãe no acompanhamento escolar dos filhos, cabendo aos pais desempenhar o papel de “monitores” da mãe. “Percebemos também que os problemas escolares vividos pelos pais no seu passado são reproduzidos com os filhos, e que as tensões e conflitos vividos no dia-a-dia familiar repercutem desfavoravelmente na vida escolar dos filhos”, ressalta a autora da dissertação.

Outra conclusão do trabalho, que está articulado com a pesquisa institucional do departamento da PUC-RIO, cujo título é “Trajetórias escolares e socialização familiar: investigando as camadas médias na escola”, mostra nas famílias estudadas o impacto da representação da superioridade da escola particular com relação à escola pública.

“Ao matricular seus filhos na escola particular, as famílias procuravam uma escola perto de casa, com mensalidade baixa, poucos alunos em sala de aula, onde os filhos fossem tratados com carinho. Estas famílias deixaram de avaliar os aspectos pedagógicos e da rotina do dia-a-dia da escola. A escola mostra-se ineficiente, mas ainda assim as famílias mantêm seus filhos nela”, lamenta Werneck.

Segundo ela, a pesquisa apresentada na dissertação foi apontada pela banca como tendo sua relevância e importância para o assunto. Entretanto, existe a clara necessidade de estudos adicionais sobre tais questões, que apresentam múltiplas facetas.

“Nove Famílias: visões de mundo e estilos de vida. O retrato de uma realidade numa escola particular do Rio de Janeiro”, dissertação de mestrado de Ana Paula Lellis Werneck. Orientação: Zaia Brandão. Defesa em outubro de 1999, no departamento de Educação da PUC-RIO.

COMO CITAR ESTE CONTEÚDO:
MENEZES, E. T. Visões de mundo numa escola particular. EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2000. Disponível em <https://educabrasil.com.br/visoes-de-mundo-numa-escola-particular/>. Acesso em 28 fev. 2024.

Comente sobre este conteúdo: